quarta-feira, 11 de março de 2009

Lendo Tori Amos...

Tori Amos é uma artista impressionante (dã). Voz, música, interpretação, alma. Mas essa genialidade vai além da música. Tori, especialmente no seu último trabalho, mostra-se ser dona de uma perspicácia no campo do visual, performático e simbólico. Nesse caso, partindo de conhecimentos que envolvem semiótica, linguagem gráfica e toda a minha neura de fã inconformada por não ter visto AINDA um show da Tori, resolvi começar a “ler” o que a Tori nos diz a cada álbum. Vamos começar com o ADP.

O ADP é o álbum mais carregado de sugestões visuais... Mas dentro do que pareceria tão óbvio e teatral (toda a descrição psicológica marcante das dolls) ainda há algo a ser dito. Lembrando: essa é minha leitura. Como qualquer interpretação, é pessoal demais para lidar como um fato.
Vou tentar fazer isso não parecer minha aula da faculdade:

Para nós, ocidentais, o lado esquerdo da imagem é psicologicamente associado ao dado, o conhecido, o antigo na mensagem. Na foto ao lado temos Clyde e Isabel, que são aspectos conhecidos da Tori, a melancolia e a consciência do mundo, de uma maneira até amarga e seca. São arquétipos contraditórios, a mulher que sente o mundo e a mulher que vê o mundo. Posicionadas dessa maneira, muito próximas, elas nos dizem que são a Tori de sempre. Obviamente, são muito humanas para serem generalizadas num sentimento e por isso temos uma revolta e alegria contidas, reservadas. São elementos da carreira de Tori Amos, uma alegria melancólica ou infantil e uma madureza de sentimento causada, quem sabe, pelas experiências da vida.

Agora, vez do lado direito. Psicologicamente (e semióticamente) ligado ao novo, ao conteúdo de caráter inovador na mensagem. Resumindo, Santa e Pip. Algumas pessoas vão achar que Santa e Pip (respectivamente, a mulher que deseja o mundo e a mulher que rejeita o mundo) já são traços presentes na obra de Tori Amos. Mas de fato, o desejo e a rejeição pelo mundo são elementos de certa forma pouco dosados e alternados nos aspectos Clyde e Isabel. Exemplo? A melancolia de Clyde envolve uma nuance de esperança e entusiasmo pelo mundo, frustrado e resultando em rejeição, self-protection. Santa e Pip são absurdamente performáticas. O ódio, rancor ou mágoa de “Me and a Gun” nunca foram suficientes para apontar uma arma num palco. E de todas as dolls, podem me crucificar, mas a que mais me chama a atenção é Santa. Por trás daquela alegria, dos martinis, da “sinsuality”, há uma necessidade absurda de cuidados e uma incapacidade de proporcioná-los a si. Por isso a atitude “sou do mundo”. A entrega de Santa é reflexo da despreocupação em achar respostas em si. E, na foto, ela se arremessa com abandono para que a tiremos daquele cenário, e Pip, olhando nos nosso olhos, diz que vai embora (menção de sair da cena na postura corporal).

And finally, but not least... Tori.

Deixei Tori por fim por que ela exige uma leitura gráfica diferente das que já foram mostradas. É a organização centro-margens. É usada para indicar influência e importância de um elemento sobre outros.
Coisas a observar:
- Todas as Dolls se dirigem ao leitor. Tori está de costas;
- Tori está com a roupa rasgada;
- Está sobre o ícone de destaque na imagem: a bandeira dos EUA;
- Está com um braço ascendente e um descendente.
De fato, Tori não representa Tori Amos em sua totalidade. Ela é sua essência. Mais do que isso, ela é a música, o talento, anima. E nós. Tori é um instrumento (não o Bö, claro) e de um ponto de vista mais simples ela, nessa imagem, simboliza a idéia do álbum. A revolta que culmina numa caracterização debochada até de si própria. Com os gestos, ela indica o concreto e o irreal, a passividade e a energia, e outras antíteses. E toda a história envolvendo “the american posse”. Tori representa os outros. O resto do mundo. We, the people. E é através dela que conhecemos as demais Dolls.

(Enfim acabou! Texto gigante! É incompleto, dá pra fazer teses sobre Tori Amos. Sintam-se à vontade para dizer que está tudo errado aí em cima, e discutam, por favor.)

4 comentários:

hernando disse...

Madyana...
Lindo!!!!!!!!!!
Estou esperando o trabalho do BKP, ok?

Victor Hugo disse...

Analogia perfeita!

Ítalo Scissorhands disse...

Belo texto, parabéns!!

Netto disse...

mady, você simplesmente fechou!!!! ótima explicação! pa-ra-béns!!!