terça-feira, 13 de novembro de 2012

Flavors: Midwinter Graces

Damos agora continuidade à série Flavors com um lindo conto inspirado em Midwinter Graces, primeiro álbum sazonal de Tori Amos. Ainda que seja um disco um tanto negligenciado pelos toriphiles, Hernando conseguiu unir a magia das músicas de Natal, expressas com maestria nas melodias do disco, àquela tristeza tão típica das festas de fim de ano, que costuma fazer emergir dramas que guardamos lá no fundo. Um texto mágico!

Por Samanta Alcardo (que escreveu o texto do Pink)



Mais Um Conto de Natal

Eu sempre quis conhecer a neve.
Sempre que assistia àqueles filmes que se passavam no natal, aqueles bem americanos mesmo, me imaginava brincando com neve, fazendo bolas, construindo bonecos e toda aquela tradição que parece tão acolhedora... É o tipo de coisa que me faz pensar em saudades de coisas que nunca me ocorreram. E de como essa saudade pode ser real - ou honesta, ao menos.

De uns tempos pra cá, essas vontades infantis tem voltado. Desde que minha mãe partiu, bem dizer. Ela me criou sozinha, e mesmo sendo mais calada que o habitual para o padrão materno (as mães de amigos que o digam), ela sabia como resolver tudo em um ou dois afagos. Talvez por minha primeira casa ter sido feita só de nós dois, eu senti como se tivesse perdido meu mundo quando a vi indo embora - já tenho esposa e uma filha linda, mas até hoje sinto falta do olhar silencioso dela. O mesmo que me olhava com todo o carinho quando era preciso. O mesmo que falava como nenhum outro.

Foi pensando nessa nuvem de reminiscências que pairava sobre minha cabeça que acabei decidindo saciar um desejo que nunca tive a chance antes: iríamos visitar um grande amigo que morava nos EUA, pela época de natal, e assim eu finalmente conheceria a neve! Ao contar para minha filha que nós faríamos a viagem, a primeira coisa que me perguntou foi: “a gente vai pra Disney?!” Disse que dessa vez não, e mesmo ficando um pouco contrariada, contentou-se com a promessa de que compraria um vestido de uma das princesas para ela por lá. “Eu quero o da Bela Adormecida, que é toda rosa e brilhante!”, disse ela, descrição essa que me foi lembrada diariamente, até o dia da viagem. “Crianças são tão insistentes que chegam a irritar”, pensava eu, para depois rir de mim mesmo ao lembrar da neve. “Crianças...”

Quando finalmente desembarcamos, fomos recebidos pelo Josué, e entre os habituais “que saudade!” e “sua menina já cresceu muito!”, fomos ao carro para seguirmos à casa dele. Mesmo faltando alguns dias para o feriado natalino, a rádio já tocava músicas da época, num programa chamado “Your holiday faves”, e ao ouvir Silent Night, lembrei de um disco de minha mãe que ela sempre punha quando chegava a véspera de natal, com “Noite Feliz”.

“Pelo menos aqui eles não tocam ‘Então é Natal’” - Josué interrompe mais um devaneio e é seguido por gargalhadas de todos, o que me fez voltar à realidade e perceber que já estávamos na área de subúrbio onde ele mora. Mesmo me sentindo imerso em um daqueles filmes que tanto gostava, uma coisa me afligia - não via neve em lugar algum! “É porque esse ano está demorando a chegar, também estou estranhando”, respondeu-me enquanto tirávamos as malas do carro.

Cumprimentamos a esposa dele, que nos esperava com chocolate quente e de braços abertos, e depois de alguns minutos conversando sobre a viagem e o impacto que é sair de um verão tão quente para um inverno tão frio como aquele, fomos aos aposentos que ocuparíamos naquela estadia. Aproveitamos para passear bastante nos dias antes do feriado, e mesmo sendo surpreendido por coros cantando pela rua ou me animando com a felicidade de minha filha em usar seu vestido, rosado e cheio de glitter, ainda ficava angustiado por uma dúvida: “por que não nevou ainda?!”

E assim, chegamos ao dia 24 de dezembro. A ceia estava quase pronta, e nesse meio tempo me distraía vendo na TV imagens de outras localidades em que a neve havia caído e eles já faziam a festa que eu tanto queria fazer. “Mas como ficou lindo esse anjo de neve!”, exclamou Isabella, a esposa de Josué, nos chamando logo depois para finalmente sentar à mesa e começar as comemorações. Depois de agradecermos pela refeição, ela pediu licença para falar sobre o significado do natal, e nos presenteou com as seguintes palavras:

“Antes mesmo de Jesus ter nascido, o solstício de inverno já era motivo de comemoração entre os antigos, uma vez que ele representava o renascimento do sol em direção a seu ápice, no solstício de verão. E o mais importante nessa época é lembrar que todas as almas podem passar por períodos de completa escuridão, como é o caso dessa noite, mas tão pronto o dia amanheça, a luz recomeça seu tranquilo percurso para que em pouco tempo, volte a iluminar nossos corações. E crer nisso, meus amigos, é o que nos sustenta perante toda e qualquer incerteza - elas passam. Assim como passam as alegrias, as dores também hão de passar. E quem está vivo, nisso acredita, por mais que não consiga aceitar. Brindemos à esperança, brindemos ao que há de bom para nos salvar!”

Depois de um caloroso brinde, em que quase derramei o conteúdo de minha taça no peru sobre a mesa, sentamos, conversamos e fomos uma família até a hora de deitar. Após beijar minha esposa, deito minha cabeça no travesseiro e subitamente me lembro: “e a neve, por onde anda?”. Não demorou muito, e acabei adormecendo sem mais hesitar.



“Neve! Pai, tem neve!”

Sou acordado por Aurora com seus gritos de alegria, e quando consegui formalizar o que ela havia me dito, senti-me como se tivesse acabado de engolir uma pedra! “Finalmente eu vou conhecer a neve...”, pensava alto, e ao mesmo tempo que me trocava, sentia um terror súbito de ir lá fora. Aquilo ia e vinha, até me fazer ficar sentado por algum tempo refletindo se era tudo verdade. “Vem logo, amor, a menina quer brincar com você!” - Marília me fazia acordar pela segunda vez, e agora sim saíra do quarto.

Ao pisar naquele tapete branco, sentindo o ar frio invadindo meus pulmões, permaneci um tempo parado, como se ainda estivesse tentando acreditar. Foi aí que Aurora jogou uma bola de neve nas minhas costas e, finalmente, abri um sorriso que nem os coros, nem o chocolate quente ou qualquer outra coisa daquele lugar haviam me proporcionado - foi quando fiz a minha primeira bola e joguei contra Marília, e assim, começamos nossa brincadeira! Josué e Isabella ficavam nos olhando com se fôssemos 3 crianças comendo melaço pela primeira vez, até que ele, após levar uma bolada minha, desceu e me ajudou a fazer meu primeiro boneco de neve! “Felicidade branca, felicidade alva!” - era só nisso que pensava!

Passada a excitação do momento, aproveitei que todos haviam entrado pra se esquentar e fiquei sentado, na varanda da casa, observando um pouco o movimento da rua. Foi quando avistei uma senhorinha, de baixa estatura e longos cabelos grisalhos, visíveis mesmo com o gorro que ela usava, passando umas casas à frente. De imediato, lembrei de minha mãe. Quase que instintivamente, desci a escada na entrada da casa e fui ao encontro dela, como se tivesse algo a lhe dizer - foi quando um das sacolas que ela trazia caiu no chão, e me precipitei para recolhê-la. Ao subir minha vista e olhar para seu rosto, senti-me estranho por confirmar que não era ela.

“Oh, thank you, sir!”
“De nad- oh, you’re welcome, lady”

Ela me deu um sorriso cortês antes de seguir seu caminho. Retribuí, sorrindo de forma desconcertada, e voltei para casa. “You’re not there”, no rádio alguém cantava.

Subi ao quarto, e chorei.
Chorei todas as lágrimas que podia chorar, e senti os pingos caindo como cachoeira sobre minhas pernas, ainda um pouco geladas. Foi aí que Marília, ouvindo do corredor meus soluços, chamou Aurora para falar comigo. Minha menina entrou no quarto, perguntando porque seu papai chorava e então veio me abraçar.

A segurei em meus braços, disse que estava tudo bem.
E ela sorriu para mim.

Ela sorriu para mim.

De repente, lembrei das palavras de Isabella, naquela mesa de jantar:

“Assim como passam as alegrias, as dores também hão de passar. E quem está vivo, nisso acredita, por mais que não consiga aceitar. Brindemos à esperança, brindemos ao que há de bom para nos salvar!”

Foi quando Marília também entrou para me abraçar. E ao tê-las do meu lado, no mais completo silêncio, eu soube que ela também estava lá. Fechei os olhos e senti de súbito meu coração esquentar...

Você estava lá.
Você estava lá.


And all is calm... All is bright

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Hernando Siqueira Neto, 25 anos. Uma pessoa que aproveita bastante seu ócio criativo e sua suposta solidão. E que vive pensando em Marianne.

Um comentário:

Leonardo Cidreira disse...

Boa Tarde! Gostaria de publicar aqui o grupo q eu criei sobre a Tori: http://www.facebook.com/groups/toriamosbrasil/ Gostaria que participassem... Tipo a comunidade do orkut, com tópicos, enquetes, discussões e etc... Quem quiser ser moderador, fiquem a vontade. Eu como internauta e apaixonado pela Tori, enfatizo a participação dos fãs brasileiros, para trocar-mos idéias. Obrigado.