domingo, 11 de novembro de 2012

Flavors: Y Kant Tori Read

O Y Kant Tori Read é um álbum de rompimento. Mesmo sendo aquele exagero sonoro e visual (especialmente pelo spray para cabelo que exala do encarte, rs), o disco tem letras extremamente emocionais, e algumas de suas músicas são tocadas até hoje por Tori (Cool On Your Island, Etienne). Admito que me surpreendi ao terminar suas traduções, me sentindo assim na obrigação de incluí-lo na série Flavors e convidando o Felipe Colmenero, autor do cativante texto sobre o Scarlet's Walk, a contribuir mais uma vez para o blog. Aqui está o ótimo resultado de seu esforço: uma viagem não-linear, indecisa sobre ser ou não ser uma bad trip, mas cheia de personalidade e, por que não, carão? Let's see the Big Picture...




PARTE I

"Mas como isso é brega!" Ele diz.
"Meu amor" — eu digo — "nos anos 80 todo mundo tinha que pagar o aluguel e fazer um permanente, era o último grito da moda em Milão."

Nos conhecemos e ouvimos Y Kant Tori Read em 2006.

PARTE II


Sentei num restaurante numa quinta feira e fui comer um rolinho primaveira. Só um rolinho primavera, um temakizinho e curtir a chuva. Tô no Brasil, sou brasiliense e queria comer comida japonesa. Eu não sei LIBRAS, e não sou surdo, mas eu, como bom ator que finge ser italiano, eu só falo gesticulando. E fazer um bom molho vermelho.

                      Saiu de dentro de mim vermelho naquela primeira vez, sabia?

E lá, bom lá estava. No restaurante. Quem estava, ele com seu novo amor?
Mudei de mesa pra me esconder deles. Eu os vi. E fui visto. Senti a vergonha de ser quem eu era.
Eu, com meus bregas cabelos vermelhos bagunçados, senti o constrangimento.


Eu gesticulei, apreensivo, no meu pseudo linguagem de sinais: — eu não sabia. Eu não sabia que você estaria aqui.


Naquele restaurante, fiz o mesmo gesto que fiz a ele naquele dia mesmo, no motel. Quando o abandonei, no motel que sempre iamos juntos.

Ele acordou frio.


Tava chovendo horrores e desci pra pegar o carro. Adivinha...
A janela tava quebrada, o carro fudido, arrombaram meu carro! Roubaram minhas coisas...

Fayth.
Tenha fé.

Ligo pro seguro, pro guincho, ligo pro taxi. Nada. Ligo pra você. Mesma coisa.

O taxista, ao menos, finalmente foi me buscar, me viu... o cliente tinha cabelo ruivo, vermelho, rosa, arrepiado e bagunçado, umas botas sujas e ao me buscar, ele já sabia que eu era uma puta de fé. Como deve ser toda pessoa que pede um taxi ao sair do motel.

Fayth tem fogo ao lado.

PARTE III

Fogo ao lado direito da cama (ele sempre dorme no lado direito da cama).
Fogo ao lado (ele sempre senta no banco do passageiro quando eu o busco em casa). Fogo ao lado (ele sempre me chama de puta).
Fogo ao lado (porque eu sempre ... bom, eu sempre sento e me sinto perto do frio).

PARTE IV

O taxista viu a puta e me perguntou: — você está bem?

                      Não.
                      Seria a resposta sincera.

Eu, com meu cabelo com permanente, e meu sorriso disse: — tô bem, mas parece que a cidade tá flutuando, nessa chuva! Tudo tá derrapando... a gente deveria ter cuidado em como a gente dirige. Tem tanta água que pode até aparecer um barco no meio de Brasília.

                                            Com os piratas.
                                            Estou tão longe de casa, ele nesse motel quebrou minhas joias. Porra... espero que esteja ardendo nele assim como tá ardendo em mim agora. Ardendo bem naquele lugar... Ao menos ele pagou a conta do motel.


— Porque você pediu um taxi?
— Porque arrombaram meu carro e eu preciso voltar pra casa pra pegar os documentos do seguro.

                                            tsc tsc tsc... coisas em que a gente finge que acredita.

Não, eu sou uma puta. Eu sou um vendedor. Eu sou o amante.

                                            Eu sou o amante emocional ou o amante cheio de lascívia melancólica?
                                            Porque nosso sexo é bom, mas tampouco é satisfatório. E se eu sou o amante emocional... o sexo é unilateral. Ele quer atiçar minha admiração. Se ele me tratasse com respeito, eu não teria fugido.
                                            Merda... quebraram meu carro... esses 50 reais nem vão ser suficientes pro taxi...

PARTE VI

Sabe quando você quer comer um rolinho primavera no seu restaurante predileto.

— Nossa, como deu vontade de ir naquela temakeria na 209 sul e comer aquele temaki e rolinho primavera! Só quero o temaki e o rolinho. Eu nunca quero aquele gengibre e aquele nabo e a cenourinha ralada que vem de acompanhamento, mas acabo comendo só pra não desperdiçar meu dinheiro.



                      Eu sou o acompanhamento. O prato que vem junto e que no fim a gente acaba comendo.

                      E ele não desperdiçou o dinheiro dele.


PARTE VI

Saindo do restaurante, eu sou o que gesticula. sempre sento agora no banco do lado, ardo no banco do lado e, como sou destro, logo, fica mais fácil para fazer aquilo que você já sabe que homens fazem na calada da noite dentro do carro, aquilo que você sabe que está ao meu lado. Mas escondido dentro de um zíper.

                      A cidade está alagada de chuva, mas quando você vai me levar pra sua cidade flutuante. Onde não há frieza, água salgada e os todos... etceteras...

Ele estava aqui. Mas o outro (d)ele, não.
O outro está dormindo em sua casa, calmo, aconchegado. Esperando ele chegar e dormirem quentinhos, de conchinha.


PARTE VII

Fayth tá com o carro fudido e pegou um táxi.
O taxista começa a bater papo. Finalmente ele percebe que eu não estou bem. Eu tento desconversar.

—O que houve?!

Primeiro sinal de compaixão com o garoto esquisito que ele pegou no motel com cabelo vermelho bagunçado de quem acabou de trepar e marcas vermelhas no rosto.

—Meu braço esquerdo tá dormente e estou com dor de cabeça e sentido meu peito pesado. E eu não to conseguindo respirar...
— Isso pode ser um enfarto! Mas você é tão bonito e jovem, quantos anos tens, uns 23? — Não... tenho quase 27...

                      I'm loving him too much.

— Quer que eu te deixe no hospital?
— Não, eu tô bem. É só ansiedade, e fome. Pode me deixar ali na 209 norte, quero comer um rolinho primaveira e ir pra casa. Moro por ali mesmo.


Sento a mesa, controlando minha tremedeira e minha dormência no braço esquerdo. Olho pra frente. Ele. E ele. Juntos. Escuto por alto: — olha quem tá ali...o Felipe.

                                            You took my love, you took my money, you took my sex. Why am I afraid of change? Kiss goobye.

Eu faria tudo de graça. E com prazer. Mas arde, não?


PARTE VIII

Com o braço dormente, eu gesticulo: Eu não sabia. Eu não sabia que você estava aqui. Eu não te segui.

O outro, percebe que há um pária conhecido (será que a outra puta está por perto?), se volta pra trás e me olha com desaprovo. Eles pedem a conta e saem.

                                            Why I was there for you? You won't even let me keep you from falling from the boundary that divides our love...

No caminho, escondido do namorado dele, ele toca no meu pulso e me dá um olhar. Sua pele estava pegando fogo. Fire on the side, no meu pulso direito. Suspirou, friamente, no meu ouvido: — eu queria terra estável, mas você preferiu se afundar. Você me disse que estava infeliz. Eu sempre estive ao seu lado, mas acho que eu não era o suficiente.



PARTE IX

Meu corpo também é uma ilha. Como meu carro é uma ilha. Como Brasília é uma ilha.


Minha ilha está congelante.




PARTE X


Sento um dia, naquela temakeria. E eu achando italiano gesticulo... escondidamente:



Eu não sabia que voce estava aqui!



Alguem fudeu com meu carro. No dia que eu descobri que você... bom... você estava admirando as coxas de outra puta. Porra velho, sou sua puta e você agora nem quis me ver.

                                                                  Sabe o que é interessante em carros? Eles se parecem com ilhas. Simples e claramente, nao dá pra fugir. As ilhas no frio, bem tu tens de ter corrones pra fugir.                    Abrir a porta do carro em movimento. Desliga esse ar condicionado que não to aguentando o frio! Arde quando, tuas botas arrastam no asfalto antes mesmo do carro parar, quando você pula fora da
ilha.


PARTE XI

Eu tava no meu carro. Eu estava no meu carro, fugindo. A porta estava quase pegando fogo depois do acidente. Era muito fogo ao meu lado. Não era mais um taxista, mas eu precisava de mais dinheiro.
Acho que ele gostou do meu cabelo ruivo, do meu permanente. Das minhas botas de couro.


E gostou da espada que eu carregava.


PARTE XII


Eu não sabia que você estaria aqui

.

Foi um acidente de carro.


                                                                  Tsc tsc tsc tsc tsc tsc

Quando a gente precisa de um segurança, ele rouba sua cueca.
O seguro, não atende, mas o taxista atende. E cobra 45 reais. Pra me levar na oficina. Ele me olha com aquele olhar e pensa, essa puta deve ganhar menos de 50 reais, já dá pra saber por esse cabelo e essas botas.



Quantas vezes eu estive no banco do passageiro?



PARTE XII




Minha ilha está congelante.
Minha ilha está congelada.



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Felipe Colmenero

26 anos e ainda preso à nostalgia e às saudades do que ainda não veio. Pensa que é um autista plástico, escritor ninfomaníaco e cozinheiro de mão cheia, mas o que faz de melhor é ser cantor desafinado de karaokê, beber vodka barata e escrever poemas nas paredes da casa com péssima caligrafia. Brasiliense aquariano com ascendente em aquário, logo um arrogante cínico e/ou um ativista esquizofrênico que chora escondidinho no chuveiro, Enquanto pinta o cabelo de rosa, Sou uma imitação de mim mesmo.


3 comentários:

Leonardo Cidreira disse...

muito bom! parabéns.

Hernando Neto disse...

Obrigado por ler, Leonardo, estamos quase no final e espero que vc continue acompanhando :D

Felipe E. P. Silva disse...

Fico feliz em poder dividir o que senti e poder saber que (eu posso estar mentindo) nesse mundo de impressões, vivemos apenas impressões. Únicas e íntimas.

Eu só quero dividir.

Os agradecimentos, bom, eles me agradam.

Mas agora o texto não é mais meu. Não me pertence.

A arte, a escrita e a loucura, agora são de vocês.

Não mereço crédito por isso.

Minha opinião ao ser dita, vai à outras pessoas. Não mereço créditos ou elogios porque agora o que eu criei, não é mais meu. O elogio agora é pra quem leu e viu e sentiu.

Mas eu mereço uma vodka, ok?

Fico feliz, porque, eu pude falar o que alguém muito mais inteligente que eu me falou.

E por isso digo: Obrigado.