quinta-feira, 13 de maio de 2010

Tradução: Scarlet's Walk - Scarlet's Bio [PARTE 1]

Tori sempre teve interesse em álbuns fortemente conceituais. Mas se parece ser moda fazer um disco conceitual, o que distingue Tori e, às vezes, provoca um certo estranhamento, é fato dela não só criar um conceito: ELA VIVE O CONCEITO, na forma de personagens, típicas de sua carreira desde o início dos anos 2000. Talvez, a mais emblemática de todas seja Scarlet, do álbum Scarlet's Walk, uma heróina que de tão verdadeira, sofreu até plágio de Marli (Anastácia e as flores de Ipirá...). Como Scarlet-Tori fala por si só, prefiro deixar que sua biografia nos conte mais sobre o incrível universo que a circunda. Segue então a Scarlet's Bio.

Mais que uma simples coleção de canções, Scarlet's Walk é um romance sônico. É ao mesmo tempo altamente íntimo e profundamente político, uma jornada épica e meticulosamente pensada através da América. Uma viagem por terra pela clássica tradição Kerouac, narrada por uma personagem chamada Scarlet que confunde-se com a própria Amos e todas as outras mulheres.
“Scarlet está assumindo meu lugar”, diz Tori. “Você pode dizer que ela é baseada em mim. Ou talvez eu seja baseada nela”.
Como em qualquer boa viagem por terra, Scarlet descobre durante o caminho muito sobre o mundo à sua volta e até mais sobre ela mesma. Aprofunda-se no passado e reflete sobre a que ponto chegamos e para onde deveríamos ir.
Cheia de personagens às vezes desesperados, mas sempre fascinantes e ricos em simbolismo e alegoria, o passeio de Scarlet é tanto uma jornada de auto-descoberta como uma análise acerca das duras escolhas que nos esperam, em um mundo que comumente parece ter perdido seu compasso moral.
Parcialmente inspirado pelas histórias ditas por sua mãe sobre sua família Cherookee, assim como pela crise de indentidade vivida na América contemporânea, este é o mais desafiador, ambicioso e vívido projeto criativo da fértil imaginação de Tori, até hoje.

O passeio de Scarlet inicia-se na Costa Oeste, aonde ela visita AMBER WAVES, uma expressão encontrada em America The Beautiful, e também o nome de uma pornstar do filme Boogie Nights. Amber está com um problema. “Ela chegou a Cidade dos Anjos com o propósito de ser alguém. Mas indo 'da aula de balé para o lap dance, até ser lançada em vídeo', sua alma foi pouco a pouco erodida. Ela ainda é uma mulher jovem, no fim de seus 20's. Mas o Barão do Pornô que a lançou havia encontrado uma nova ingênua. O público a devorou para depois abandoná-la, de modo a não sobrar ninguém que se importasse com ela”. Então Scarlet e Amber assumem compromisso com a jornada, o que leva nossa heróina ao Alaska para ver as Luzes do Norte (the Northern Lights). “Lá, Scarlet recebe uma mensagem a ser passada para Amber: elas não estão afogando... estão acenando”.
A SORTA FAIRYTALE nos mostra Scarlet de volta a Los Angeles ao lado de um homem a quem ela julga ser sua alma-gêmea. “Ele começam a grande viagem num carro de modelo clássico sobre a Highway da Costa do Pacífico, atravessando também o deserto. Mas à medida que seguem, a máscara cai, e ambos descobrem que a fantasia que tinham um do outro não os representava de verdade”. Ele voltam exatamente ao local de onde partiram, e Scarlet vai embora. “Eles de fato se importavam. Mas, de algum modo, perderam um ao outro. É por isso que se trata de 'um tipo de conto de fadas'”...
Scarlet vai em busca de novos amantes. Em WEDNESDAY, ela está envolvida num relacionamento com um homem que guarda segredos. “A confiança se foi, e ela não sabe se ele se importa de fato com o que tinham ou não. Ela percebe também que está se tornando algo que jamais gostaria de ser – Possessiva e desconfiada”. Mas em outro nível, o romance de Scarlet é com a América. “A Terra da Liberdade é tão livre assim? Pessoas puseram seu ideal de liberdade na América. Sendo pelo descumprimento dos tratados com indígenas ou pela recente quebra dos estoques de mercado, a cobiça estava em toda parte”.
Em STRANGE, a jornada de Scarlet a leva para os últimos pontos de resistência dos Nativo-americanos, incluindo Little Big Horn. De lá, ela segue para as Bad Lands (Más Terras). “Scarlet assumiu as crenças de seus amantes e, num outro nível, de seu país. Porém, ela começou a questioná-los. Somos ensinados que a América luta pela Democracia, mas não é isto que ela está presenciando”.
Continuando, Scarlet conhece uma maniaco-depressiva chamada CARBON. Elas viajam pelas Colinas Negras (The Black Hills) da Dakota, em direção a Wounded Knee (“Joelho Ferido”), cenário de um dos episódios mais sombrios da história dos Nativo-americanos. “Tudo o que Carbon deseja é se desintegrar. Então esta é uma história extremamente destrutiva. Assim como o povo ariscou sua vida para manter sua Terra Sagrada, um desastre está para acontecer na vida dela e uma valsa com a insanidade desponta no horizonte. Carbon acelera nesta corrida mental ao fundo do vale, e Scarlet precisa alcançá-la antes dela se matar”. Elas acabam chegando num Resort de Esqui – Bear Claw, Free Fall e Gunner's View, citados na canção, são de fato pistas de esqui. Mas para Carbon os limites e parâmetros de normalidade deixarem de existir, dando lugar à auto-mutilação e a um desejo urgente de imergir no precipício. Scarlet passeia em meio à loucura, mas a situação é deixada sem solução.
Neste ponto, um novo personagem, CRAZY, chega à vida de Scarlet. “As coisas que diz fazem total sentido, e parecem levar a dor por um tempo. Ela decide seguí-lo. Crazy é sedutor e perigoso, o que torna tudo delicioso. Mas você sabe que não é para sempre, ao perceber que não será possível acompanhá-lo”. Juntos eles viajam pela campo comboy e voltam ao deserto, antes dele abandoná-la em Tucson.
Lá, Scarlet encarna a voz dos ancestrais Nativo Americanos em WAMPUM PRAYER, após visitar o cenário onde se deu o Massacre do Povo Apache. “Ela teve um sonho e segue a voz e oração de uma anciã sobrevivente, dona da canção que foi costurada à Terra”. Existe um paralelo óbvio com as linhas melódicas do folcore aborígene na Austrália, à medida que Scarlet é levada pelo sonho até alcançar o País Cherokee e a ancestralidade de seu próprio povo.

Por enquanto, só começamos. A viagem continua no post que vem...
Por Hernando Neto

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